Plug and Play Usuário
doméstico,
o novo consumidor rei
Luiz Henrique Corrêa Quemel
Para um observador mais atento, não é difícil
perceber a revolução subterrânea em torno de uma força que se desenvolve
sem muito alarde: os usuários domésticos. Esse segmento não teve em épocas passadas a
devida atenção por parte das empresas e agora promete, na sua busca por mais respeito,
perturbar o atual modelo econômico do mercado de informática.
Segundo o International Data Corporation (IDC), um dos
mais renomados institutos de pesquisa mundial, o setor doméstico no Brasil responde hoje
por cerca de 40% das vendas de micros. O mercado de PCs caseiros teve elevado crescimento
ainda mais com o agravamento da crise econômica que abala nosso País.
É no setor doméstico que os usuários vêm recebendo
cada vez mais por parte das empresas de informática atenção especial no que diz
respeito à adequação de produtos e serviços.
A IBM voltou atrás em sua deliberação de abandonar
definitivamente o mercado de PCs caseiros e, cinco meses após sua decisão, lança uma
linha específica para esse segmento. Veio disposta a reconquistar o mercado de PCs
caseiros.
A Microsoft criou (sem sucesso) o Agente Microsoft,
programa moldado nos sistemas de venda porta-a-porta tipo Avon e Tupperware. Após ganhar
muito dinheiro com programas de certificação (MCP, MSCE, etc.), ela passa a se preocupar
mais com os usuários, criando o Microsoft Office User Specialist (Mous), o novo programa
de certificação para usuários corporativos.
Empresas como Intel e Compaq criaram produtos pensando no
crescimento das redes domésticas impulsionadas pela compra do segundo computador. Mas é
da 3Com a última e uma das mais importantes novidades para redes caseiras: um equipamento
que permite ao usuário leigo montar sua própria rede em casa sem precisar abrir o micro.
Empresas que somente concentrarem seus focos para o setor
empresarial poderão ter, em meados do ano 2000, uma desagradável surpresa. É quando o
problema ocasionado pelo bug do milênio estará parcialmente contornado em
parte em função da substituição do parque informático. Conseqüentemente, haverá
queda nas vendas de micros corporativos.
O usuário doméstico consolida, então, um outro papel
capaz de proporcionar mudanças significativas em seu favor: o de consumidor de bens e
serviços de informática.
Na mês em que comemoramos o Dia Internacional do
Consumidor (15) e também os oito anos da Lei 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor),
o usuário doméstico pode ser considerado o consumidor rei, pois inúmeras são as
iniciativas de torná-lo uma nova força emergente.
A título de exemplificação, citaremos apenas algumas
iniciativas que possam confirmar nosso pensamento. Vem de Minas Gerais talvez a mais
significativa contribuição para o crescimento do poder do usuário doméstico. Trata-se
da Cartilha dos Direitos do Consumidor de Informática e Telecomunicação, produzida pela
Sociedade de Usuários de Informática e Telecomunicações (Sucesu). É praticamente um
CDC orientado para o consumidor de informática.
É também da Sucesu, só que de Pernambuco, a atenção
especial principalmente para com o usuário leigo. Com um programa intitulado Consultoria
ao Leigo, uma vez por semana, técnicos em informática estão à disposição dos
associados para tirar dúvidas sobre compra e uso de computadores, Internet, orçamento
para máquinas com defeito, etc.
Iniciativas como estas deveriam ser seguidas por todas as
outras representações do Brasil. A meu ver, essa sociedade é que deveria representar a
maior parte dos usuários domésticos. Por enquanto, com raríssimas exceções, só
atendem apenas aos interesses corporativos.
A Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes),
entidade que defende os interesses da indústria de software no Brasil, também não
esqueceu dos usuários domésticos, criando o Guia de Orientação ao Consumidor de
Informática e, é claro, dando também orientações quanto à pirataria de software.
Iniciativas como estas dão maior poder ao usuário, que
passa a influenciar diretamente as relações de consumo com as empresas. Essas ações
têm sido por parte de empresários menos honestos motivo de muitas preocupações,
acostumados que estavam com a ingenuidade da parcela maior de consumidores leigos.
Em Fortaleza, existe o Selo de Qualidade em Informática,
uma iniciativa da Assespro juntamente com o Sebrae, que está moralizando o setor de
informática no Estado.
O consumidor de informática, leia-se também usuário
doméstico, passou da fase de sensibilização à de conscientização e desta para a de
mobilização: é só verificar o crescimento de comunidades virtuais na Internet
dispostas a lutar pelos direitos dos usuários e também dos consumidores de bens e
serviços de informática.
A imprensa, por meio dos suplementos de informática dos
principais jornais do País, tem agora papel fundamental nesse processo tão importante
relativo à defesa do consumidor de informática quanto à orientação técnica.
Sejamos superconsumidores em informática e façamos valer
nossos direito$$$$. O pintor Iberê Camargo disse uma vez: O brasileiro tem alma de
escravo, aquele que luta pelos seus direitos no Brasil é considerado criador de
caso.
Luiz Henrique Corrêa Quemel é Consultor Doméstico®
em Informática