Suplemento semanal - 31 de março/1999
Plug and Play 

Usuário doméstico,
o novo consumidor rei 

Luiz Henrique Corrêa Quemel 

Para um observador mais atento, não é difícil perceber a revolução “subterrânea” em torno de uma força que se desenvolve sem muito alarde: os usuários domésticos. Esse segmento não teve em épocas passadas a devida atenção por parte das empresas e agora promete, na sua busca por mais respeito, perturbar o atual modelo econômico do mercado de informática. 

Segundo o International Data Corporation (IDC), um dos mais renomados institutos de pesquisa mundial, o setor doméstico no Brasil responde hoje por cerca de 40% das vendas de micros. O mercado de PCs caseiros teve elevado crescimento ainda mais com o agravamento da crise econômica que abala nosso País.

É no setor doméstico que os usuários vêm recebendo cada vez mais por parte das empresas de informática atenção especial no que diz respeito à adequação de produtos e serviços.

A IBM voltou atrás em sua deliberação de abandonar definitivamente o mercado de PCs caseiros e, cinco meses após sua decisão, lança uma linha específica para esse segmento. Veio disposta a reconquistar o mercado de PCs caseiros.

A Microsoft criou (sem sucesso) o Agente Microsoft, programa moldado nos sistemas de venda porta-a-porta tipo Avon e Tupperware. Após ganhar muito dinheiro com programas de certificação (MCP, MSCE, etc.), ela passa a se preocupar mais com os usuários, criando o Microsoft Office User Specialist (Mous), o novo programa de certificação para usuários corporativos.

Empresas como Intel e Compaq criaram produtos pensando no crescimento das redes domésticas impulsionadas pela compra do segundo computador. Mas é da 3Com a última e uma das mais importantes novidades para redes caseiras: um equipamento que permite ao usuário leigo montar sua própria rede em casa sem precisar abrir o micro.

Empresas que somente concentrarem seus focos para o setor empresarial poderão ter, em meados do ano 2000, uma desagradável surpresa. É quando o problema ocasionado pelo “bug do milênio” estará parcialmente contornado em parte em função da substituição do parque informático. Conseqüentemente, haverá queda nas vendas de micros corporativos.

O usuário doméstico consolida, então, um outro papel capaz de proporcionar mudanças significativas em seu favor: o de consumidor de bens e serviços de informática.

Na mês em que comemoramos o Dia Internacional do Consumidor (15) e também os oito anos da Lei 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor), o usuário doméstico pode ser considerado o consumidor rei, pois inúmeras são as iniciativas de torná-lo uma nova força emergente.

A título de exemplificação, citaremos apenas algumas iniciativas que possam confirmar nosso pensamento. Vem de Minas Gerais talvez a mais significativa contribuição para o crescimento do poder do usuário doméstico. Trata-se da Cartilha dos Direitos do Consumidor de Informática e Telecomunicação, produzida pela Sociedade de Usuários de Informática e Telecomunicações (Sucesu). É praticamente um CDC orientado para o consumidor de informática.

É também da Sucesu, só que de Pernambuco, a atenção especial principalmente para com o usuário leigo. Com um programa intitulado Consultoria ao Leigo, uma vez por semana, técnicos em informática estão à disposição dos associados para tirar dúvidas sobre compra e uso de computadores, Internet, orçamento para máquinas com defeito, etc.

Iniciativas como estas deveriam ser seguidas por todas as outras representações do Brasil. A meu ver, essa sociedade é que deveria representar a maior parte dos usuários domésticos. Por enquanto, com raríssimas exceções, só atendem apenas aos interesses corporativos.

A Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes), entidade que defende os interesses da indústria de software no Brasil, também não esqueceu dos usuários domésticos, criando o Guia de Orientação ao Consumidor de Informática e, é claro, dando também orientações quanto à pirataria de software.

Iniciativas como estas dão maior poder ao usuário, que passa a influenciar diretamente as relações de consumo com as empresas. Essas ações têm sido por parte de empresários menos honestos motivo de muitas preocupações, acostumados que estavam com a ingenuidade da parcela maior de consumidores leigos.

Em Fortaleza, existe o Selo de Qualidade em Informática, uma iniciativa da Assespro juntamente com o Sebrae, que está moralizando o setor de informática no Estado.

O consumidor de informática, leia-se também usuário doméstico, passou da fase de sensibilização à de conscientização e desta para a de mobilização: é só verificar o crescimento de comunidades virtuais na Internet dispostas a lutar pelos direitos dos usuários e também dos consumidores de bens e serviços de informática.

A imprensa, por meio dos suplementos de informática dos principais jornais do País, tem agora papel fundamental nesse processo tão importante relativo à defesa do consumidor de informática quanto à orientação técnica.

Sejamos superconsumidores em informática e façamos valer nossos direito$$$$. O pintor Iberê Camargo disse uma vez: “O brasileiro tem alma de escravo, aquele que luta pelos seus direitos no Brasil é considerado ‘criador de caso’.” 

Luiz Henrique Corrêa Quemel é Consultor Doméstico® em Informática

Volta


Fale conosco