Suplemento semanal - 09 de fevereiro/2000

Plug and Play

Números mágicos? Nem tanto

Luiz Henrique Corrêa Quemel

foto4.jpg (22119 bytes)“Segundo as últimas análises do Macrohard (renomado instituto de pesquisa), até 2001 metade da população do planeta estará comprando pela Internet. Segundo o instituto, serão 12 bilhões (o que representa 50% dos usuários Windows) de usuários. De acordo com Mendacious, presidente do instituto, pequenas empresas que não se adequarem a essa nova realidade, adquirindo soluções de e-commerce, serão varridas pela concorrência.”

O texto acima, embora fictício, começa a expor uma realidade que até o começo de 1999 era pouco contestada: os números das pesquisas e projeções no milionário mercado de informática. Os resultados começam a dar sinais de fadiga, pois não conseguem mais se sustentarem e, para evitar contestações, utilizam-se da “pedagogia do terror” para se manterem.

De fato, após inúmeros relatórios de pesquisas evidenciando valores às vezes absurdos para esse ou aquele setor da informática e telecomunicações, sempre vem um “alerta” ou uma “ameaça” velada: se você não comprar isso, se você não implementar aquilo, se você não se adaptar, estará acabado e fora do mercado. É nesse mercado que institutos, consultorias e empresas faturam alto, mas, em alguns casos, provocam grandes confusões quando as adivinhações não se cumprem.

Em fevereiro do ano passado, foi apresentada pela Fenasoft uma pesquisa contabilizando o número de computadores vendidos no Brasil em 1998 – 2,1 milhões de computadores. Bastaram algumas semanas após a divulgação para aparecerem as mais diversas contestações: Dataquest, Fundação Getúlio Vargas, IDC Brasil e várias outras entidades que se apressaram em tomar para si os verdadeiros números.

Segundo o IDC Brasil, foram apenas 1,48 milhão de computadores vendidos em 1998. Os números foram publicados na revista América & Economia, de maio de 99.

Quando começou a sofrer contestações em agosto, discretamente a filial brasileira se retratou e disse que, após a revisão dos números, pois não havia contabilizado o mercado paralelo, na verdade eram 2,04 milhões! A notícia foi divulgada oficialmente na revista Computerworld, nº 304.

Em julho/99, foi a vez da guerra de números entre a Compaq e o IDC Brasil. Enrique Ospina, vice-presidente da empresa para a América Latina, desmentiu a pesquisa feita pelo IDC que apontava a Itautec na liderança nas vendas de computadores no primeiro trimestre daquele ano. “Temos uma pesquisa do Instituto Dataquest (leia-se Gartner Group) que mostra que continuamos a liderar as vendas de computadores pessoais no Brasil.”

Lembro-me de que, certa vez, alguém falou: “O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Talvez por isso que “a gente ainda somos inúteis”. Quando mostram dados que não agradam, é melhor desqualificá-los a ter seu império abalado.

Caso semelhante aconteceu com a Microsoft que até outubro de 1999, vinha aplaudindo todos os resultados das pesquisas realizadas, nos quais a companhia sempre esteve na dianteira de tudo.

Repentinamente, mudou quando o Gartner Group apresentou uma pesquisa na qual mostrava os “salgados” custos de migração para o Windows 2000. Reação da Microsoft: a pesquisa estava equivocada, portanto não merecia créditos.

Até nós tivemos nosso caos numerológico. Em agosto passado, o Ibope divulgou a 4ª Pesquisa Internet Brasil. Tudo ia bem até alguém notar a discrepância dos resultados. O instituto se desculpou e refez o texto. A justificativa foi “erro de arredondamento”. Deu a impressão que seis pode ser diferente de meia dúzia.

Em Paris, de 5 a 8 de setembro de 1999, foi realizado, com o tema A Corrida pela Inovação, o 52º congresso da maior entidade mundial de pesquisa: a Esomar. Profissionais do mundo inteiro estiveram debatendo o que é necessário mudar para acompanhar as transformações do mercado, dos consumidores e do papel do marketing.

Daniel Leconte, presidente da Esomar, foi taxativo em afirmar que a pesquisa só terá sentido em um mundo crescentemente competitivo, se for capaz de auxiliar as empresas a buscarem inovações capazes de colocá-las na pole position do mercado. Destacou também que a evolução das técnicas de pesquisas continua a ser importante, mas deve estar subordinada à oferta de informações de qualidade sobre consumidores e mercados, capaz de efetivamente auxiliar os executivos das empresas clientes em suas decisões relativas a inovações para enfrentar a concorrência crescente.

Ao encerrar esse discurso, Leconte desagradou profundamente àqueles que ainda acreditam que maquiar pesquisas de mercado para depois se utilizar da “pedagogia do terror” a fim de impor soluções seja o único caminho.

O Brasil prima pela falta de estatísticas sobre o mercado de informática, no qual qualquer um que disponha de dados para impressionar é logo aclamado, e os números são acolhidos sem análise crítica. Paul Pastrone (analista do International Data Corporation) há cerca de dez anos ponderou que é melhor ter uma informação aproximada do que não ter nenhuma.

Fica a dúvida: mesmo que seja com jogo de búzios, quiromancia ou pesquisas fraudulentas?

A cigana disse certa vez: “os números não mentem jamais”. Só que, analisando esses episódios, fica a impressão de que a bola de cristal estava embaçada.

Luiz Henrique Corrêa Quemel é Consultor Doméstico® em Informática

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