Plug and Play Números mágicos? Nem tantoLuiz Henrique Corrêa Quemel
O texto acima, embora fictício, começa a expor uma realidade que até o começo de 1999 era pouco contestada: os números das pesquisas e projeções no milionário mercado de informática. Os resultados começam a dar sinais de fadiga, pois não conseguem mais se sustentarem e, para evitar contestações, utilizam-se da pedagogia do terror para se manterem. De fato, após inúmeros relatórios de pesquisas evidenciando valores às vezes absurdos para esse ou aquele setor da informática e telecomunicações, sempre vem um alerta ou uma ameaça velada: se você não comprar isso, se você não implementar aquilo, se você não se adaptar, estará acabado e fora do mercado. É nesse mercado que institutos, consultorias e empresas faturam alto, mas, em alguns casos, provocam grandes confusões quando as adivinhações não se cumprem. Em fevereiro do ano passado, foi apresentada pela Fenasoft uma pesquisa contabilizando o número de computadores vendidos no Brasil em 1998 2,1 milhões de computadores. Bastaram algumas semanas após a divulgação para aparecerem as mais diversas contestações: Dataquest, Fundação Getúlio Vargas, IDC Brasil e várias outras entidades que se apressaram em tomar para si os verdadeiros números. Segundo o IDC Brasil, foram apenas 1,48 milhão de computadores vendidos em 1998. Os números foram publicados na revista América & Economia, de maio de 99. Quando começou a sofrer contestações em agosto, discretamente a filial brasileira se retratou e disse que, após a revisão dos números, pois não havia contabilizado o mercado paralelo, na verdade eram 2,04 milhões! A notícia foi divulgada oficialmente na revista Computerworld, nº 304. Em julho/99, foi a vez da guerra de números entre a Compaq e o IDC Brasil. Enrique Ospina, vice-presidente da empresa para a América Latina, desmentiu a pesquisa feita pelo IDC que apontava a Itautec na liderança nas vendas de computadores no primeiro trimestre daquele ano. Temos uma pesquisa do Instituto Dataquest (leia-se Gartner Group) que mostra que continuamos a liderar as vendas de computadores pessoais no Brasil. Lembro-me de que, certa vez, alguém falou: O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde. Talvez por isso que a gente ainda somos inúteis. Quando mostram dados que não agradam, é melhor desqualificá-los a ter seu império abalado. Caso semelhante aconteceu com a Microsoft que até outubro de 1999, vinha aplaudindo todos os resultados das pesquisas realizadas, nos quais a companhia sempre esteve na dianteira de tudo. Repentinamente, mudou quando o Gartner Group apresentou uma pesquisa na qual mostrava os salgados custos de migração para o Windows 2000. Reação da Microsoft: a pesquisa estava equivocada, portanto não merecia créditos. Até nós tivemos nosso caos numerológico. Em agosto passado, o Ibope divulgou a 4ª Pesquisa Internet Brasil. Tudo ia bem até alguém notar a discrepância dos resultados. O instituto se desculpou e refez o texto. A justificativa foi erro de arredondamento. Deu a impressão que seis pode ser diferente de meia dúzia. Em Paris, de 5 a 8 de setembro de 1999, foi realizado, com o tema A Corrida pela Inovação, o 52º congresso da maior entidade mundial de pesquisa: a Esomar. Profissionais do mundo inteiro estiveram debatendo o que é necessário mudar para acompanhar as transformações do mercado, dos consumidores e do papel do marketing. Daniel Leconte, presidente da Esomar, foi taxativo em afirmar que a pesquisa só terá sentido em um mundo crescentemente competitivo, se for capaz de auxiliar as empresas a buscarem inovações capazes de colocá-las na pole position do mercado. Destacou também que a evolução das técnicas de pesquisas continua a ser importante, mas deve estar subordinada à oferta de informações de qualidade sobre consumidores e mercados, capaz de efetivamente auxiliar os executivos das empresas clientes em suas decisões relativas a inovações para enfrentar a concorrência crescente. Ao encerrar esse discurso, Leconte desagradou profundamente àqueles que ainda acreditam que maquiar pesquisas de mercado para depois se utilizar da pedagogia do terror a fim de impor soluções seja o único caminho. O Brasil prima pela falta de estatísticas sobre o mercado de informática, no qual qualquer um que disponha de dados para impressionar é logo aclamado, e os números são acolhidos sem análise crítica. Paul Pastrone (analista do International Data Corporation) há cerca de dez anos ponderou que é melhor ter uma informação aproximada do que não ter nenhuma. Fica a dúvida: mesmo que seja com jogo de búzios, quiromancia ou pesquisas fraudulentas? A cigana disse certa vez: os números não mentem jamais. Só que, analisando esses episódios, fica a impressão de que a bola de cristal estava embaçada. Luiz Henrique Corrêa Quemel é Consultor Doméstico® em Informática |